• Todos por 1

ESPÍRITO SANTO, LONDRINA, AMÉM!

por Marcelo Frazão

Londrina – Se você simplesmente desistiu da humanidade depois de mais de 10 dias sem PM no Espírito Santo, leia esse texto até o final.

Não sei se você sabe mas passei boa parte da minha infância e adolescência no Espírito Santo.

Até meus 17 anos, morava em frente à praia.

Sabe aquilo que vc busca nas férias? Eu vivia todo dia. Atravessava a rua para tomar um côco e era aquele mar azul com tartaruga nadando. Golfinhos ao fundo, de vez em quando. Baleia lá longe também.

Chegava, até a enjoar de praia: às vezes jogava bola até morrer e não caia na água. Também me lembro de tomar banho de mar às 20h, 21h, 22h da noite com a água cristalina, depois de uma partida.

É a imagem que guardo e a que vejo quando ainda retorno a Guarapari, meia hora de Vitória, colada na capital.

Praia das Castanheiras, Guarapari, Espírito Santo, onde vivi


O Espírito Santo, na minha cabeça adolescente, era um Rio de Janeiro menos pior. Nos últimos dias, superou.

Pois trago notícias fresquinhas do paraíso.

Escrevo para que nós, aqui em Londrina, compreendamos o poder da cooperação nessas horas tão tristes e sinistras.

Lições de como a crise precisa servir para fazer as coisas melhorarem – e não serem admitidas como se apresentam.

Quem conta é a minha avó, Maria do Socorro Frazão.

Tem 89 anos e mora em Guarapari alguns meses por ano, em frente ao calçadão, na Praia das Castanheiras. Fiz muita corrida de tampinha naquela areia. Tem bolinha de gude que perdi enterrada ali até hoje.

Dona Maria mora 200 metros de onde você provavelmente viu, na imprensa e na internet, o vídeo de um bando tentando invadir as Lojas Americanas.

Uns 15 bandidos só não conseguiram porque alguém fez cinco disparos de arma de fogo. A turba fugiu correndo.

“Achei que o barulho era de fogos de artifício”, me contou dona Maria.

 “Eu sabia que a situação estava ruim. Mas ficou tenso mesmo quando começou a aparecer loja arrombada por mulher com criança saqueando junto”, detalhou.

Ver algo assim – todos nós vimos aqui de Londrina e sofremos junto – tem um impacto bombástico na vida das cidades e do país. Detona a nossa psique.

No meio de uma crise econômica destruidora, morte de ministro da Lava-Jato, agravamento dos problemas de segurança, conflito ideológico permanente entre amigos e familiares, na rede social e na vida real, tudo o que não precisávamos era de uma onda de terror social.

Muito mais grave que qualquer maldita crise dos anos 80-90.

No nosso tempo, esse tipo de situação muda a vida das pessoas e do imaginário das cidades. Não importa se você viu pela tevê, pelo celular ou se ouviu os tiros da sala da sua casa.

Minha avó ficou uns cinco dias sem sair de casa. A empregada que a ajuda não ia há uma semana – a bandidagem não deixou os ônibus saírem.

Lá mesmo em Guarapari, mataram o presidente do sindicato dos trabalhadores do transporte. Dois tiros à queima roupa, após os ônibus voltarem a circular.

O depoimento da minha avó poderia se estender por uma hora sobre como tudo ocorre e como tudo é.

Mas o rumo da conversa foi para outro lugar.

“A Virgínia, esposa do síndico, passou a tarde comigo aqui outro dia. Conversamos, tomamos café, falamos da vida. Nunca tínhamos feito mesmo morando no mesmo prédio”, me detalhou.

“O pessoal da vizinhança ficava ali embaixo na área conversando porque não podíamos sair. Surgiu até a ideia colocar uma mesa e umas cadeiras na próxima obra do prédio, para ter um lugar dos vizinhos, para a gente se encontrar”, explicava dona Maria.

Uma das vizinhas combinou um côco na praia, dia desses.

Apesar do choque, do terror, do toque de recolher, da tristeza coletiva, minha avó estava com a energia relativamente em dia.

E no Espírito Santo também aconteceu algo insuficientemente captado, explicado e interpretado.

Espírito Santo, sempre, Vitória e Vila Velha do alto do Convento


Vizinhos que não se conheciam se encontraram. Quem não se falava muito aprendeu a ficar junto, mais perto.

Com mercados fechados ou desabastecidos – e o medo de sair à rua – quem tinha uma água sanitária sobrando ofertava no whatsapp. Quem podia ir no mercado comprava um quilo de arroz para o outro.

No lugar de passar pavor trancado em casa, teve gente que aprendeu a tocar a campainha e a se ajudar. Todo mundo depende de todo mundo.

Nas redes sociais, muita gente ironizou quando um carro com alto falante saiu na noite da capital Vitória tocando Imagine, de John Lennon, para todo mundo que se sentia refém em cativeiro dentro de casa.

Você pode perder seu tempo pensando na articulação do crime organizado, na maldade da massa que arromba e saqueia todo dia – e aproveita a “oportunidade” sem polícia.

Pode ficar assustado com os quase 150 mortos acumulados com a paralisação da PM também. Aposte, inclusive, que parte disso tem com os próprios policiais, além da bandidagem de sempre.

Mas qualquer história tem mais. Tem uma lição contida.

“Marcelo, tinha gente aqui entregando hoje de volta na loja. Foi morador que viu e quis fazer porque todo mundo estava roubando. Aquilo deve ter doído na consciência de alguma forma”, pontuou ela.

Claro que não foi com todo mundo. Ficou na minoria. Claro que a parcela esmagadora permaneceu com o butim ou vendeu no Mercado Livre – foram centenas de “flagrantes” pós-saques.

E é elementar que “exemplos” assim não mudam uma realidade cruel e violenta. Não, bandido não se comove com o relato da minha vovozinha.

Na internet, a missão de quem entendeu o problema continua. Um dono de vidraçaria oferta a preço de custo novas vitrines para quem teve o comércio saqueado. Outros comerciantes também vendem mercadorias sem lucro para quem perdeu com a bandidagem.

Evidente a importância de nos ajudarmos como moradores. E isso não deveria servir apenas para as horas mais duras.

“Os meninos do Exército estão ali na esquina. Passam com os fuzis e as pessoas dão tchau. Ficou uma sensação de alívio. Está tudo ainda deserto mas aos poucos vai voltando ao normal”, espera dona Maria.

Não, tranquilo. Minha vó não clama pela volta do regime militar.

Apenas sabe a importância deles com a polícia paralisada. Viveu os anos de chumbo e, por isso, não encara com normalidade o cerco a partir de 1964.

O Espírito Santo, na real, é tão perigoso quanto qualquer beco de Londrina. Basta riscarmos o pavio – as condições já estão criadas.

Todo ouriço tem beleza!


No entanto, não é preciso a turba na rua saqueando para nos sentirmos saqueados. Diariamente, Londrina convive com o caos na segurança local.

Vizinhos assaltados dentro de casa à luz do dia. Amigos com a residência arrombada e a vida invadida ao entrar com o carro ou na saída a pé. Furtos. Violência. Sensação de desequilíbrio social.

Já erguemos nossos muros – e eles nada evitaram.

Reforçamos as portas, trocamos os cadeados chineses por mais duráveis. Nada fez efeito. Nos escondemos – e fomos achados.

Existe uma vigilância que não exercemos – e ela é muito maior do que as rondas da PM.

Como bem sabe a minha avó, parte da resposta para o problema de segurança da rua pode estar no vizinho.

A tecnologia da conversa na calçada ainda parece uma boa arma contra o estado de abandono que nos toma nas incertezas.

Em Londrina, a PM também faz tempo que inexiste.

Até uns dois anos atrás, o conserto de uma viatura da polícia na cidade era um esquema do primo do governador.

Algo aceito – e conhecido – do comando da PM local. Nem está no Tropa de Elite: foi um esquema denunciado na Justiça de Londrina pelo GAECO, já com condenações em 1ª instância.

Lembremo-nos: um laranja confessou que a oficina Providence era, na verdade, do primo do governador, Luiz Abi. E era lá que as viaturas (não) eram consertadas em uma licitação fraudada. Condenado a 13 anos de prisão, recorre em liberdade.

A PM sofre de desconexão profunda com a sociedade. Tem dificuldades como qualquer órgão público mas é um organismo blindado que precisava ser apoiado.

No entanto, difícil imaginar a cidade mobilizada em favor de uma corporação que não admite dificuldades e não pede ajuda claramente. Sem prestar contas para a cidade e a sociedade, nunca fez a mínima questão de ser transparente nem confiável.

Esse papel – de confiança e transparência – fica para os policiais que ainda honram a profissão. Não é uma tarefa do alto comando.

No meu imaginário de morador, uma polícia que se exime de vir à tona apontar o real envolvimento de seis PMs na chacina do começo de 2016 nos deixa rendidos como seria com qualquer bandido.

A esta altura, deveríamos ter uma PM aberta, trabalhando com os moradores da cidade. Londrina bem poderia planejar a integração das câmeras de vigilância das casas e comércios ao sistema de segurança pública. Tal como Londres.

Mas o que impressiona é imaginar o Espírito Santo…

Sem alternativa, fico com o conselho da minha vó. Escolha o seu vizinho, a sua rua – e não o medo. Simples, mas nada fácil.

Lembre-se de que a maior tecnologia de segurança é a cadeira na calçada e o movimento da vizinhança. A nossa grande proteção é todo mundo com todo mundo.

E, sinceramente, espero que você tenha a chance de conhecer algum lugar bonito do Espírito Santo. Sempre vai valer à pena.

Somos Londrina. Somos Todos por Um.

nossos endereços

ola@todospor1.com

Rua Prefeito Faria Lima, 775

Londrina, PR. Fone: (43) 3377-2888.

redes sociais

TP1_logo_rodapé_laranja_.png