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LONDRINA E O ESTADO D'ARTE

por Marcelo Frazão Londrina – Sabia que a cultura em Londrina nasceu antes, bem antes do Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic)? Reforçar o óbvio faz-se necessário: neste momento surgem, até mesmo, movimentos culturais cuja principal bandeira é… reduzir o dinheiro público para a cultura na cidade! Exatamente: dentro do movimento cultural, há quem veja como solução investir MENOS. Menos cultura significa menos sociedade, menos gente, menos possibilidades. Os artistas de Londrina não dependem do Promic. Somos nós, moradores de Londrina, quem dependemos dos produtores culturais da cidade. Está em curso um corte de R$ 1,72 milhão no Promic – dinheiro que deveria ter sido investido na cultura em 2017, mas não foi, com a não realização de editais para financiar. O movimento pleiteia que o dinheiro seja acrescido ao programa no ano que vem, mantendo o previsto. Perceba que a cena cultural de Londrina, desde o nascimento, sempre foi um agito em si. Antes de qualquer centelha de Promic, já éramos uma cidade com muita arte por metro quadrado – reconhecida nacionalmente por tal. O Festival Internacional de Londrina (FILO) nasceu mais de 30 anos antes de se ouvir falar em políticas de financiamento cultural – público ou privado. Não navego muito nas artes como produtor (fiz um documentário com dinheiro próprio e não escrevi um livro ainda), mas me solidarizo, como plateia, com a classe artística de Londrina. Nesta altura do campeonato, depois de ver os produtores culturais de Londrina fazerem tanto pela cidade voluntariamente, deve ser duro ter que ouvir lição de moral de quem propõe “crowdfounding” e financiamento privado – como se isso já não fosse feito a todo tempo. Típico argumento para fustigar cidadãos comuns contra um monte de gente comum. Boa parte das pessoas nesta foto do Emerson Scada conheci na cena cultural. E, como disse, não foi convivendo por dentro dela: foi como plateia mesmo. Nesta imagem, eles se reuniram para discutir os cortes e as intimidações que os artistas de Londrina vêm sofrendo. Como jornalista e morador, sempre vi esses produtores no palco e nos bastidores de teatros, cenas de rua, rodas de histórias, lançamentos de livros, marchinhas, movimentos de periferia e de centro. Testemunhei a arte deles para quem tem e para quem não tem. Com o que tinham e o que não tinham.


Enquanto a fissura com o nu rola solta, muito além do Festival de Dança e da importante performance DNA de DAN, no Lago Igapó, o Promic alavanca projetos como o Festival Literário de Londrina (Londrix), o FILO, o Festival de Música e dezenas de ações e iniciativas espalhadas pela cidade. E só não espalha mais porque o financiamento público não cobre tudo. Qualquer pessoa que se aproxime verdadeiramente de um projeto cultural em Londrina verá: com ou sem Promic, a mágica da arte acontece. E se o poder público entra, dá escala para o impacto cultural em curso. Uns 16 anos atrás, Londrina foi um dos centros urbanos do país a descentralizar a cultura dos lugares de sempre (geralmente, museus e bibliotecas nas áreas mais favorecidas das cidades). Foi rara a época em que o poder público promoveu uma estratégia cultural para projetos em TODAS as regiões da cidade, capazes de transformar. E quantas realidades não transformou. Quantas poderiam transformar ainda mais.

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