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O RECADO FINAL DE FERNANDA MONTENEGRO SOBRE LONDRINA VAI FAZER SEU DIA MELHOR

por Marcelo Frazão LONDRINA – Parecia um sarau entre amigos, mas eram 750 espectadores. Quando caminhou no meio do palco aquela “aparição” do teatro e da tevê, a plateia em um Ouro Verde lotado entregou-se hipnotizada. No entanto, na essência, estávamos diante da máxima simplicidade e empatia desejadas por quem quer chegar onde simplesmente é Fernanda Montenegro. Estamos no FILO-2017 e, por isso, dispensam-se as formalidades. No centro do palco, a mesa simples, uma cadeira, o copo d’água não-bebido e Fernanda com textos inéditos de Nelson Rodrigues. Nas mãos dela, os papéis com os escritos mais pareciam ter saído da mesa de trabalho das redações esfumaçadas onde o cronista atuou. Antes de dar cabo a 1h30 de leitura teatralizada de Nelson Rodrigues, avisa que colocará uma ária italiana que ele ouviria – O Palhaço. Os gestos, a voz, a mesa – Fernanda joga um jogo de parecer-ser-mas-não-sou com o autor que é uma raridade. Uma fina conexão entre ela e uma “alma” do dramaturgo que a atriz conheceu de perto. Quem nunca desenhou na cabeça um Nelson Rodrigues, o verá nos trejeitos de Fernanda ao tentar enxergá-lo ali no palco. Os textos variam do mais ácido humor até à auto-crítica a que o autor se submetia. “Sou a rua”, rasga Fernanda, com uma voz que não é mais ela. Um dos textos, inclusive, traz Nelson sarreando a própria Fernanda ao contar quando, em 1959-1960, ela ligava insistente no telefone da redação, durante 6 meses, requisitando-lhe uma peça de teatro. “A Fernanda merecia um prêmio”, lê, sobre si própria, com voz irônica, como se ele. Aí nasceu O Beijo No Asfalto, um marcador do teatro brasileiro, encenado um ano depois, em 1961. E os textos desdobram-se em episódios cômicos da infância de Nelson, memórias da escola, viagens por posições conservadores/anti-comunistas e ao mesmo tempo extremamente libertárias. Falam sobre casamento, sobre sexo e sobre um marcante episódio da história social carioca – o assassinato do irmão Roberto, em 1929, dentro do jornal. Sylvia Serafim, quem teve a separação no casamento exposta como manchete no jornal da família de Nelson, comprou uma arma e invadiu a redação. Queria matar Mário, pai de Nelson, dono da Crítica. Como ele não estava, acabou matou o irmão Roberto. A leitura é dramática. Presenciar verdades cruas, indelicadas, rodrigueanamente brutalizadas, por uma Fernanda Montenegro frágil, forte, linda e envelhecida ali, a metros, em pleno Teatro Ouro Verde recém-erguido das chamas já seria uma experiência estremecedora por si. Mas após os aplausos e apupos, quando já todos satisfeitos, Fernanda não deixa que a gente vá embora do sarau sem um último conforto. Só alguém dessa humanidade vem na nossa casa e nos serve, preocupada e grata, palavras como essas: “Agradeço por estar neste teatro. Nos dias de hoje, isso aqui é um milagre. Uma cidade que tem um teatro como esse é uma cidade digna, uma cidade que tem caráter.” Ouça a gravação do discurso final dela, até os aplausos. Clique no play e diga ao Tp1: não é a melhor coisa que você ouviu sobre Londrina ultimamente?

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