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SOCORRO: O SUPERSINCERO DIRETOR DO IPPUL QUE QUEBRA CONCEITOS

por Marcelo Frazão LONDRINA – Ano após ano, sinto-me relativamente acostumado, como morador de Londrina e jornalista , a ver a eterna “parceria” entre o poder público e o setor privado para especular, fatiar e manipular ativos imobiliários/terras da nossa cidade. Sempre foi assim. Independente da gestão municipal, dificilmente é diferente. Em todas as cidades do país, os Planos Diretores são parte da mesa de negócios que, muitas vezes, envolvem construtores sem pudor, imobiliaristas-mercadores, prefeitos vendilhões, gestores técnicos falsetas e vereadores-surrupiadores – contra moradores comuns, contra as praças que não falam, contra os parques públicos, áreas verdes e florestas que nunca reagem, contra os fundos de vale silenciosos, contra a qualidade de vida e o bem-estar. Os discursos mais “discursados” sobre o desenvolvimento de Londrina são aqueles: defendem que a cidade “precisa crescer e não tem mais para onde” e que “precisamos de indústrias a qualquer custo, qualquer que sejam. Rápido”. É assim que permitem-se indústrias pesadas perto das últimas florestas. Ou que consentimos em erguer mais prédios mais próximos dos fundos de vale ou dentro de áreas históricas – e de preferência sem estudos de impacto, para “desburocratizar”. Com as justificativas useiras, defendemos, tranquilamente, como fizeram os vereadores e o prefeito de Londrina, uma empresa de agrotóxicos expandindo atividades ao lado de residências. Acaba de ser assim no Jardim Eucaliptos. Pelo “desenvolvimento”, vamos em busca de verbas para viadutos caríssimos, duplicações e alargamentos que nos façam chegar em casa 20 minutos mais cedo. Funciona assim – em qualquer governo municipal, de esquerda, de direita ou centro, “honestinho ou mau-caraterzinho”: quando há embate entre moradores X indústrias ou meio ambiente X indústrias… adivinha quem sempre perde? Passar o rolo compressor no Plano Diretor é regra. É a escola que governos – “técnicos”,”populistas” ou “esquerdistas” – têm nos legado como cidade. Moradores e audiências públicas – bem como o Estatuto das Cidades – servem de decoração para validar decisões que colocam em xeque o desenvolvimento sustentável de Londrina. O Plano Diretor de Londrina sempre foi um caso clássico de lei utilizada contra o interesse público e contra os moradores. Meio habitual – embora indignante sempre – testemunhar órgãos como o Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano (IPPUL) e a Secretaria de Obras da Prefeitura de Londrina operando benefícios privados difíceis de declarar. A partir de agora, até 2018, teremos uma revisão do mesmo Plano Diretor de Londrina. E os moradores da cidade precisamos não sermos deglutidos em uma lapada por aqueles setores “organizados” de sempre. Professores da Universidade Estadual de Londrina (UEL) que atuam no esclarecimento do Plano Diretor e no movimento Participa Londrina demonstraram EXTREMA preocupação com o formato dos debates – e a esperada exclusão dos moradores deles. Apesar desse cenário, na reunião de kick-off para o novo Plano Diretor na Câmara de Vereadores, foram surpreendentes as declarações públicas do atual diretor de planejamento do Ippul, o maringaense José Vicente Alves do Socorro. Enquanto alguns imobiliaristas, construtores e empreendedores-vendedores de cidades pressionam para aumentar a zona urbana de Londrina no Plano Diretor de Londrina – tentando valorizar áreas hoje rurais para uma ocupação urbana desnecessária – o diretor-arquiteto do Ippul fez uma análise que dificilmente, em outras gestões, vi alguém defender dentro do órgão. Deu até uma ponta de esperança.

Foto: lets.book/flickr

Com base nos mapas e dados técnicos, o novo diretor do Ippul afirmou textualmente que Londrina JÁ TEM uma área urbana do tamanho adequado. E repeliu qualquer visão de que a cidade não tem espaço para crescer em curto e médio prazos. Para Socorro, inclusive, o perímetro urbano de Londrina é “exagerado”. A afirmação, no vídeo, acende uma fagulha de razão para que narrativa de que “falta espaço para Londrina crescer” renda-se à verdade dos fatos.

Na prática, o que o Ippul diz é que de cada 10 espaços urbanos existentes em Londrina, 4 estão vazios, ociosos, vagos, baldios. Isso sem contar o que está construído, mas subutilizado.

Elementar que não seria possível captar um terreno vazio no meio de um bairro e instalar ali uma indústria qualquer pelo simples fato de que precisamos ocupar tais vazios urbanos. No entanto, o apontamento do diretor do Ippul é uma facada técnica em quem “vende” a ideia falsa de que Londrina não tem mais para onde crescer e justifica que a cidade está “sufocada” pelas limitações. Não, gente. Não vamos ficar amontoados uns sobre os outros. E se o fizermos, não o terá sido por falta de espaço. Muito pelo contrário: quase metade da área urbana de Londrina está DESOCUPADA, LIVRE! E só deveríamos nos mover para diminuir a zona rural de Londrina e torná-la urbana se a maior parte do tabuleiro urbano realmente estivesse ocupado e em uso. Por que não devemos permitir o efeito que os americanos chamam de urban sprawl? Porque levar a cidade e as pessoas para onde elas simplesmente querem ir – atraídas pelo “sonho”  vendido na propaganda da incorporadora ou loteadora – inclui levar serviços urbanos, asfalto, sistemas de água, luz, transporte, estender a coleta de lixo e criar soluções que JÁ EXISTEM INSTALADAS na cidade construída sem ocupação completa. Ao permitir vazios urbanos – como os que ainda temos – em locais onde existe a infraestrutura pronta, enquanto se autoriza a cidade a “crescer” onde só há pasto, floresta, rios, plantações – aumenta os custos públicos e beneficia o sobe-desce de preços das terras na zona rural (prejudicando, inclusive, quem mora lá). É fato que Londrina não tem áreas para instalação de indústrias de alto risco ambiental ou consideradas poluentes. Mas a fala do diretor-presidente do Ippul torna possível pensar se realmente devemos nos esmerar tanto para tê-las. Londrina ainda corre atrás de um ciclo de industrialização com 30 anos de delay. E, pelo visto, 30 anos depois, deseja fazê-lo como se estivéssemos há 30 anos. Não quero concluir coisas que o diretor Socorro nem mesmo tenha dito ou seja – mas fui buscar o currículo dele, em Maringá. E me alegrei em saber que ele foi banido da Prefeitura de Maringá em circunstâncias muito semelhantes às pressões que vai enfrentar aqui em Londrina.

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